Convergência entre energia elétrica e mobilidade

Adoção de veículos elétricos é um dos caminhos para consolidar migração para um modelo de cidade inteligente

Foto: Bruno Moraes

Por Bruno Moraes e Patricia Mariuzzo

A convergência entre energia elétrica e mobilidade – que se traduz na adoção de veículos elétricos, especialmente no transporte público – é um dos pilares da migração para um modelo de cidade inteligente. Isso é que aponta um documento publicado pelo World Economic Forum (WEF), em janeiro desse ano. Para a entidade esse movimento é uma oportunidade de projetar um futuro diferente, com benefícios ambientais e econômicos para as cidades e os que moram nelas. Se levarmos em conta as projeções de crescimento populacional que indicam que em 2050 70% da população mundial estará vivendo em ambientes urbanos, a necessidade de pensar novos modelos de mobilidade mais sustentáveis coloca-se com uma prioridade.

Um estudo do Departamento de Física Aplicada da Universidade de São Paulo (USP) que buscou indicar quais são os impactos da emissão veicular na degradação da qualidade do ar na cidade de São Paulo, os pesquisadores concluíram que veículos movidos a diesel, como caminhões e ônibus, são responsáveis por cerca da metade da concentração de compostos tóxicos na atmosfera. No entanto, ônibus e caminhões representam somente 5% da frota veicular, o que demonstra a dimensão do problema. Outra pesquisa realizada no Departamento de Ciências da Saúde Ambiental, da Universidade de Columbia (EUA), mostrou que a poluição do ar das cidades, causada em grande parte pelos subprodutos da queima de combustíveis fósseis, já afeta a saúde de crianças ao redor do mundo, causando problemas de desenvolvimento, aprendizagem e imunidade. Especialmente nos países em desenvolvimento, onde a poluição tende a ser maior por falta de tecnologias que reduzem a emissão de poluentes, esses problemas de desenvolvimento acabam por agravar ainda mais a desigualdade social.

 


Mudanças climáticas, transformação nos carros : Na sequência da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2015 (COP21), em Paris, muitos países e algumas cidades anunciaram metas para eventualmente proibir motores de combustão. Noruega, Holanda, França, Alemanha, Reino Unido, China e Índia fizeram anúncios indicando suas intenções de acabar com a produção e venda de carros que funcionam com combustíveis fósseis. Cidades incluindo Atenas, Madri, Cidade do México, Paris e Stuttgart também estão planejando banir veículos a diesel até 2030 ou antes. Alguns fabricantes de automóveis assumiram compromissos de reduzir ou abandonar a produção de veículos com motores a combustão. A BMW planeja ampliar drasticamente a produção de veículos elétricos até 2020, oferecendo 12 modelos até 2025. A Renault planeja produzir 20 modelos eletrificados até 2022. A Volkswagen investirá até US$ 84 bilhões em baterias e tecnologia para eletrificar todos os seus 300 modelos por volta de 2030. A Volvo se comprometeu a adequar todos os carros que produz com motores elétricos ou híbridos até 2019. (Fonte: WEF)


 

Uma das respostas ao problema da poluição causada pelas emissões dos motores movidos à combustão é a adoção de veículos. De acordo com dados da Agência Internacional de Energia (IEA), ligada à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), em 2016, mais de 750 mil veículos elétricos (entre ônibus e carros) foram vendidos no mundo, fazendo com que a frota mundial de elétricos batesse a marca de dois milhões de unidades. Em 2017, as vendas saltaram para aproximadamente 1,1 milhão de veículos, o que resultou na frota total de mais de três milhões de unidades. Se levarmos em conta que a estimativa da agência especializada em automóveis Ward’s Auto é que 1,2 bilhões de veículos rodavam no mundo em 2014, a parcela referente aos elétricos é bastante tímida, mesmo assim o crescimento da frota de elétricos desenha um caminho promissor para esse mercado. “O mercado de elétricos começou a crescer em 2010. Ainda tem muita coisa sendo definida, em termos de mercado, aceitação e política pública”, afirma Flávia Consoni, que coordena o Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (LEVE), do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), na Unicamp.

Incentivos para mudar – A ampliação desse mercado depende fortemente de políticas públicas que incentivem a adoção de modelo de mobilidade, especialmente no transporte público. “O veículo elétrico ainda é bem mais caro do que o convencional, e precisa de incentivos para valer a pena. Um avanço que nós tivemos recentemente no Brasil foi a reclassificação dos elétricos na tabela do IPI. Antes, o valor do importo era de 25% e agora já fica entre 7% e 11%. Mas ainda existem muitos desafios”, afirmou Consoni, que publicou recentemente o “Estudo de governança e políticas públicas para veículos elétricos”, em parceria com o Ministério da Indústria, Comércio Interior e Serviços (MDIC) e com a Agência de Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ). De acordo com esse estudo, a falta de posicionamento mais claro sobre o mercado de veículos elétricos por parte do governo é um dos problemas que separa o Brasil de países como a Noruega, por exemplo, onde há subsídios de até 30% para a aquisição de veículos elétricos, como forma de incentivar a transição para a tecnologia nova.

Segundo Consoni, carros e ônibus elétricos apresentam estrutura mecânica mais simples e um desgaste menor do motor ao longo dos anos, fatores que podem reduzir os custos de manutenção em cerca de 30%, em relação aos veículos convencionais. As vantagens desse tipo de veículo, portanto, seriam melhor percebidas a longo prazo. E a durabilidade é exatamente uma das apostas das montadoras, especialmente as fabricantes de veículos pesados como ônibus.

Segundo o WEF, o investimento e a infraestrutura para apoiar a mobilidade elétrica irão variar significativamente de um lugar para outro, ou seja, o planejamento da eletrificação tem que levar em consideração as características, especialmente: infraestrutura urbana e design, o sistema energético e a cultura e padrões de mobilidade. No entanto, uma estratégia que pode valer para a maioria das cidades é dar prioridade aos veículos de alta utilização como ônibus e táxis, uma vez que eles representam um volume maior de milhas percorridas. Essa estratégia está sendo adotada em Campinas, interior de São Paulo.

Vanguarda – Campinas é hoje a cidade com a maior frota de ônibus elétricos do Brasil, são 13 veículos, de acordo com a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec). Os planos para o sistema de transporte público de Campinas são ambiciosos. Após a conclusão de um novo processo de licitação, a previsão da Emdec é de que pelo menos 30% da frota seja de elétricos. Parte deles vai circular na região central da cidade, em um espaço denominado “área branca”, no qual não haverá emissão de derivados do diesel por parte dos ônibus. “O projeto vai beneficiar também bairros distantes, em regiões populosas da cidade. A previsão é que cerca de 40% dos passageiros de Campinas possam utilizar ônibus novos e com tecnologia de ponta”, disse Carlos José Barreiro, diretor-presidente da Emdec e secretário de transportes de Campinas. Além dos ônibus, o sistema de BRT (sigla em inglês para transporte rápido por ônibus), que ainda vai ser implementado, também terá veículos com esse perfil.

O plano é que Campinas seja uma cidade que tenha o transporte público como meio principal de locomoção. Uma estratégia que vai ao encontro das recomendações do WEF que defende estímulos econômicos que resultem uma mudança de mentalidade em relação à mobilidade. Um transporte público de boa qualidade pode desestimular o uso do carro, especialmente para o transporte de um passageiro. Esse é um processo de longo prazo que envolve ver o carro como um serviço e não como um bem. Os custos da mudança, no entanto, não são baixos. “O investimento em cada um desses veículos é bastante alto, porque é tudo muito novo ainda”, explicou Barreiro. Ainda segundo ele, outro desafio é a recarga. “Esses ônibus não podem rodar o dia inteiro porque as baterias disponíveis hoje no mercado não aguentam dois turnos de itinerário. Eles têm de parar para recarregar”, disse.

A despeito disso, o secretário acredita que o investimento vale a pena por conta da diminuição da poluição atmosférica e sonora. “Torna a cidade mais agradável e também melhora a qualidade de vida dos motoristas e passageiros”, apontou. O motorista Laudemar Marques Carvalho dirige a linha nº 3.96, que liga o distrito de Sousas, na região leste do município, a aproximadamente 10 km do centro da cidade, ao Terminal Metropolitano da Rodoviária de Campinas, e que adotou os ônibus elétricos. “O ônibus desenvolve bem e é bem mais silencioso. Além disso, é automático, não tem aquele câmbio duro que às vezes é um pesadelo. Mas a principal vantagem para mim é não ter aquele cheiro horrível de diesel. O diesel está acabando com o ser humano”, disse ele. Na opinião de Carvalho, que trabalha como motoristas há mais de 20 anos, o ônibus elétrico ajuda a reduzir o estresse do motorista e dos passageiros: “Não ter aquele barulho de motor e nem aquele calor que cozinha a perna da gente já melhora bastante as coisas. É tão silencioso que quando ele está parado nem parece que o ônibus está ligado”, contou.

O presidente da Pádova Transportes, Hélio Bortolotto, também apontou vantagens nos ônibus elétricos, tanto que a empresa está comprando mais dois veículos, dessa vez com custo menor porque eles foram produzidos no Brasil. A recarga é feita na garagem da empresa no eletroposto construído pela empresa BYD, montadora de ônibus instalada em Campinas desde 2015.

O veículo elétrico tem um consumo baixo de energia, que pode ser comparado ao de um chuveiro elétrico. As baterias disponíveis atualmente demandam recargas de quatro a oito horas a cada duzentos quilômetros rodados. Mas um protótipo de ônibus desenvolvido pela montadora estadunidense Proterra conseguiu o feito de rodar mais de mil e setecentos quilômetros em apenas um ciclo de recarga da bateria.

Uma nova cidade para uma nova mobilidade – A transformação da mobilidade baseada em veículos elétricos depende da criação de uma infraestrutura de carregamento, especialmente ao longo de rodovias, nos pontos de destino, perto de centros de transporte público e em estacionamentos ao longo das ruas da cidade. De acordo com o documento do WEF, para contribuir com o um modelo de cidade inteligente, essa infraestrutura deve ser descentralizada e integrada em redes de modo a explorar plenamente a flexibilidade dos veículos elétricos enquanto permite a estabilidade do sistema energético. A digitalização desse sistema ajudaria a simplificar e melhorar a experiência do cliente. Outros aspectos importantes são o suporte à implantação e o gerenciamento eficiente dessa de infraestrutura, bem como habilitar serviços associados à mobilidade compartilhada e autônoma. Estações de carregamento também têm o potencial de tornarem centros de serviços no contexto das cidades inteligentes. “Foi regulamentado recentemente no Brasil um modelo de negócio para o oferecimento do serviço de recarga para carros elétricos”, contou Edgar Barassa, que também é pesquisador do LEVE, da Unicamp. “Nesse modelo, o dono de um estacionamento, por exemplo, venderá um serviço e não a energia elétrica em si, com a possibilidade de oferecer a recarga como um brinde para os clientes que estacionarem”, explicou.

Projetos de eletrificação – Assim como em Campinas, diversas cidades no mundo têm buscado aprimorar o sistema de mobilidade urbana por meio da adoção de ônibus elétricos. Na região de Ile-de-France, em torno de Paris, a RATP, principal operadora de transporte público, quer eletrificar até 80% sua frota de ônibus (cerca de 3.600 unidades) até 2025, com um investimento de cerca de 2 mil milhões de euros, o que deve estimular fabricantes de ônibus para desenvolver novas soluções. Buenos Aires (Argentina), Montreal, Oslo, Estocolmo e Santiago (Chile) também tem priorizado a eletrificação de transporte por meio de contratos públicos de ônibus elétricos. China tem priorizado a eletrificação da cidade pública transporte. Shenzhen, na China, é uma das cidades mais ambiciosas, com centenas de ônibus elétricos já em operação e com o objetivo de ter uma frota de ônibus completamente elétrica.

A transição para um modelo de mobilidade baseada em veículos elétricos exige altos investimentos, tecnologia e parcerias entre o setor público e o privado. Cidade inseridas em ecossistemas de inovação mais consolidados certamente sairão na frente nesse processo de transição, caso de Campinas. Trabalhando em conjunto, o setor público, privado, com apoio de centros de pesquisa e universidades, as cidades poderão convergir mobilidade e energia elétrica. Essa convergência, por sua vez, permitirá que as cidades atendam melhor às metas climáticas ao mesmo tempo em que fomentam a inovação de serviços e infraestrutura, gerando crescimento econômico. O objetivo mais importante, no entanto, é proporcionar benefícios aos cidadãos.